MAYDAY, PAN-PAN e SÉCURITÉ são três palavras que um aluno memoriza em cinco minutos.
Escolher qual corresponde, com a situação a degradar-se e a embarcação em movimento, é outra coisa.
Os três níveis
As definições não deixam margem para dúvida. São três graus de prioridade, do maior para o menor:
MAYDAY — socorro. Perigo grave e iminente. É necessária assistência imediata. A embarcação está a afundar, há fogo a bordo, há uma pessoa com uma emergência médica que não pode esperar.
PAN-PAN — urgência. Uma urgência real relativa à segurança da embarcação ou de uma pessoa, mas sem perigo grave e iminente. Perdeu-se o motor e a embarcação vai à deriva, perdeu-se o governo, há uma avaria que ainda não compromete a flutuabilidade.
SÉCURITÉ — segurança. Um aviso importante para os outros: um objeto perigoso à deriva, um aviso meteorológico, uma alteração na sinalização. Não pede ajuda: oferece-a.
A diferença entre MAYDAY e PAN-PAN não está na gravidade da avaria. Está na iminência. Um incêndio controlado na cozinha pode ser PAN-PAN; o mesmo incêndio a propagar-se é MAYDAY. É a mesma embarcação e o mesmo fogo.
Como se transmite cada um
As três chamadas transmitem-se três vezes e pelo canal 16 (156.800 MHz), que é a frequência de socorro, urgência, segurança e chamada.
Depois da palavra repetida três vezes vem a identificação da embarcação, a posição, a natureza do problema e o tipo de assistência necessária. Essa estrutura não é uma formalidade: existe para que o centro de coordenação possa despachar sem ter de perguntar, e para que qualquer embarcação à escuta compreenda em dez segundos se pode ajudar.
O SÉCURITÉ tem uma particularidade: normalmente anuncia-se no 16 e a mensagem completa transmite-se num canal de trabalho, para não ocupar a frequência de socorro com um aviso que pode ser longo.
O erro não é confundi-los. É hesitar em subir de nível
Num exercício de simulação, o erro quase nunca é não saber a definição. O aluno sabe-a, repetiu-a na aula, consegue escrevê-la.
O erro é ficar um nível abaixo. A situação vai degradando-se e o aluno permanece em PAN-PAN porque dizer MAYDAY lhe parece exagerado, ou porque teme que não seja “assim tão grave”, ou porque acionar o socorro parece um compromisso do qual não há retorno.
Quando finalmente o diz, perdeu minutos que não tinha.
Subir de nível é reversível. Não subir, não
Aqui está o ponto que quase nunca se ensina e que resolve a dúvida:
Se se transmitiu um MAYDAY e a situação se resolve, deve cancelar-se. Existe um procedimento para isso, e usá-lo não é um fracasso: faz parte do sistema. Anula-se o alerta, liberta-se a frequência e os meios de salvamento voltam a estar disponíveis.
Em contrapartida, os minutos perdidos por não subir de nível a tempo não se recuperam de maneira alguma.
As duas opções não são simétricas, e essa assimetria é o que se deve ensinar a um aluno antes de embarcar. Não para que grite MAYDAY diante de qualquer problema — um alerta falso tem custo e consome recursos reais — mas para que saiba que a decisão de subir de nível tem marcha atrás e a de não subir não tem.
A pergunta que se deve ensinar
A pergunta útil não é “o que me aconteceu?”. Classificar a avaria não resolve nada, porque a mesma avaria pode ser PAN-PAN ou MAYDAY conforme evolua.
A pergunta é: “isto vai piorar, e quanto tempo tenho?”
Se a resposta for “sim” e “pouco”, é MAYDAY. Se for “sim” mas houver margem, é PAN-PAN e deve manter-se vigiado, pronto a subir de nível. Se a resposta for “não”, provavelmente não é nenhum dos dois.
Como se vê num exercício de simulação
Num cenário, a hesitação aparece com uma clareza que nenhuma aula teórica consegue. Vê-se o minuto exato em que a situação deixou de ser uma urgência e passou a ser um socorro, e compara-se com o minuto em que o aluno o declarou.
Essa distância, medida em minutos, é a lição. Não se corrige com mais um diapositivo: corrige-se deixando o aluno escolher mal onde ninguém morre, e mostrando-lhe depois, no debriefing, o registo completo do que se passou enquanto hesitava.
O que significa para quem forma
Um programa pode ensinar as três definições numa aula e avaliá-las num exame escrito com resultados perfeitos. Isso não significa que o aluno vá escolher bem sob pressão.
A diferença entre saber e decidir só se fecha com repetição num ambiente onde o erro tem consequências visíveis e nenhuma vítima.
MAYDAY, PAN-PAN, SÉCURITÉ. Três vezes, pelo canal 16. E a pergunta de sempre: vai piorar, e quanto tempo tenho?
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